Conheça Escapatória, novo EP do Telesonica
Por: Salomão Terra, em Música, Review | Nenhum comentário

Com composições de amplo apuro estético, os sulistas do Telesonica acabam de embarcar no lançamento de seu segundo EP, Escapatória. Confira conversa com a banda sobre composições, produção e novidades…
O Telesônica lançou o EP Caso Faça Frio em 2008 com referências claramente perceptíveis. Em Escapatória vocês também deixam um pouco claro isso, mas com algumas sonoridades adicionais. Como foi esse amadurecimento e agregamento de novas referências?
Nunca escondemos nossas referências e nossas fontes de inspiração. O rock nacional costuma ter uma base fraca e o que se vê no mainstream é um conjunto de bandas com influências muito limitadas, tentamos escapar disso. Ficamos praticamente um ano compondo as músicas que estão no EP, então tivemos bastante tempo para trabalha-las e com tanto capricho é comum que muito daquilo que consideramos um bom som interfira no resultado final. Além disso, ganhamos confiança das pessoas que apreciam o nosso som, isso nos deu segurança e liberdade na condução das gravações. Não temos receio algum em dizer e explorar nossas influências, estamos sempre buscando algo sincero e honesto, que faça sentido tocar e dizer.
A propósito, de lá para cá houveram mudanças significativas na banda? O que deu para absorver com a divulgação e o tempo de shows?
Sem dúvida, a primeira coisa que pudemos observar foi o quanto é difícil viver de música neste país. Sobretudo de rock. Se for autoral então, nem se fale. E isso gerou uma mundaça comportamental na banda, de como víamos e entedíamos o cenário. No começo, todos estávamos focados em trabalharmos em cima deste sonho, de fazer sucesso com a música, mas aos poucos fomos deixando de lado a utopia e voltamos para os nossos empregos normais, conciliando-os com a nossa paixão que é fazer música. Neste período de 2 anos, fizemos bons e péssimos shows. A planificação da informação com a internet fez o nosso som viajar caminhos inimagináveis, o que é muito legal. Mas ainda assim temos que comer e pagar as contas no fim do mês, ou seja, a música, no momento, é um passatempo produtivo.
Contraponto abre o EP com overdrives, aquela levada inglesa, arranjos de guitarras proeminentes e alguns sintetizadores. Qual o conceito por detrás da faixa?
Contraponto quase não entrou no EP e surgiu, assim como o track final, através de layers. O Vinicius apareceu com um riff marcante que não saía da nossa cabeça. Gravamos esse riff e ficamos uma semana montando o quebra-cabeça, acrescentando guitarras distorcidas, melotron, sussurros e quando nos demos conta, percebemos que ela estava fechada. Tentamos uns ensaios com algumas letras, mas às vezes, uma canção exclui sozinha instrumentos desnecessários, foi o caso da voz. Queríamos algo que soasse como uma fuga, uma viagem e acho que no final chegamos perto disso.
Em seguida, Chuva e Amanhã demostram bastante da linha de Strokes em sua estrutura. É uma banda que vocês têm escutado bastante? Em que ponto outros universos são incorporados aqui?
O que o Julian Casablancas fez em toda década de 2000 foi simplificar o acesso das bandas de garagem ao mainstream. O sucesso do primeiro EP dos Strokes, "Modern Age", gravado ao vivo e em low-fi, gerou novas perspectivas a todos aqueles que estavam em suas garagens cansados do ataque massivo da Spears, Aguilera, Nsync. De fato, não estávamos ouvindo Strokes durante o processo de composição destas duas músicas mas a busca pela simplicidade na hora de gravar nos remeteu ao trabalho deles. É uma referência. Em termos de composição, por exemplo, Amanhã baseia-se em Jobim e Chuva em Nick Drake, mas na hora de amplificarmos tudo e sair do violão, a história muda completamente.
Escapatória é a faixa que dá título ao disco e talvez defina bem o nome e conceito do mesmo, com o lance crônico, de relacionamentos etc. Como sintetizar o disco e está música?
A música possui duas leituras, a primeira se passa no ambiente de um casal que passa por uma situação difícil, um momento de transição. Acho que todo relacionamento precisa de um momento de aperto para conseguir desfrutar de boa fase. A segunda leitura é uma resposta a corrupção no Brasil. Achávamos estranho como nenhuma banda havia tocado neste assunto ainda e aos poucos encaixamos essa perspectiva à canção. Por mais que os nossos governantes e a mídia ocultem os caminhos e as saídas para uma eventual solução, esse país tem jeito. Nos dois cenários, entendemos que, por pior que a situação possa ser, existe um caminho. É preciso ter esperança e lutar pelo que se quer. No final, Escapatória pode ter diferentes significados para diferentes pessoas, mas queremos passar uma mensagem positiva.
Por Enquanto e Talvez priorizam bastante as guitarras. Aliás, em todo o disco parece haver uma preocupação com o melhor timbre, efeitos e tudo isso. Como foi pensar este elemento (guitarra) e sua produção em Escapatória?
As guitarras são a espinha dorsal de qualquer disco de rock. Desde o princípio ficamos preocupados com isso porque quando se grava um disco sozinho, como foi o nosso caso, sem engenheiro de som, sem produtor, sem ninguém, o simples ato de gravar um acorde pode tornar-se um pesadelo. E foi essa autonomia que nos permitiu experimentar diferentes timbres e opções sem sofrer com qualquer tipo de opinião externa ou pressão. Gravamos tudo com tempo e paciência. Alternamos solidstate e válvulados, pedais baratos e caros. Talvez esta continue sendo uma das poucas vantagens de se produzir algo com pouca estrutura: a liberdade e o tempo de se obter o resultado que você quer, baseando-se em sons que você gosta.
Para finalizar, Jardim encerra num clima bem introspectivo apesar da energia da faixa, o que aliás lembra muito Interpol…
Sim. A faixa é um mix de influências. As letras introspectivas de Ian Curtis, o trabalho dos pratos no verso, como em "Elevation" do Television, os quase que imperceptíveis órgãos no refrão, ao melhor estilo Billy Preston. A guitarra contínua do Interpol, o solo a la Jeff Tweedy e o vibrafone de "Your Love is The Place Where I Come From" do Teenage Fanclub. Isso tudo nos ajudou a chegarmos onde queríamos, chegar com a sonoridade de Jardim, que na verdade é um relato desesperado de um perdedor nato que procura se reabilitar. Acho que todos passamos por um momento assim, esparramado em um sofá, vendo o desenho das luzes dos carros no teto, tendo por companheiro somente o próprio pensamento. Costuma ser o momento de vazio que antecede grandes ideias. Até por isso existe uma antítese sonora de pessimismo e energia da melodia.
E os planos de shows de divulgação do material? Algo em mente?
Como mencionamos acima, não vivemos de música. Todos temos empregos e contas para pagar, por isso os shows são periódicos. Nosso principal meio de divulgação continua sendo a internet. E a própria divulgação virtual depende do conciliamento do tempo das nossas vidas profissionais extra-música com a música. Em função disso a divulgação do material tem sido bem assimétrica mas estamos fazendo o possível para que consigamos a mesma boa recepção que tivemos com Caso Faça Frio.
Assuntos relacionados: Escapatória, Telesonica
detalhes
Ouça mais o som do Telesonica em seu Myspace. Aproveite para fazer o download de Escapatória.
autor









