• Don’t let me down, Darling

    jazz_coluna

    Um encontro no hotel Ady’s

    Não queria me pavonear para aquela garota. Mas aquele jazz interpretado por Louise no Hotel Ady’s contaminava o ar já condicionado de haxixe e entorpecia até os mais tradicionais gangsters americanos, acostumados a fartura de álcool e conversas sobre assuntos sujos e relações de poder. Eu deixava a garota torpe, com minhas frases insolúveis:

    - A vida é uma apnéia de sensações moleculares? – Perguntei em silêncio, com os olhos pequenos. Uma túnica púrpura brega me permeava.

    Quando dizemos coisas inenteligíveis ficamos igual um diabinho bobo, um Gorpo que esqueceu sua verdadeira magia em troca do mistério.

    Naquele momento me senti como uma casa abandonada, deixada às curiosidades, como histórias sinistras de bruxas ou lendas urbanas. De maneira que uma casa assombrada como eu, mesmo que os portões estejam abertos para o imenso matagal que virou o jardim, ninguém tem curiosidade de entrar.

    Ainda porque, hoje em dia todo cidadão tem assaz medo de uma assombração igual a mim. Nada que fere a alma ou qualquer coisa astral. O medo é de ser tomado de assalto e levarem seus pertences ou outro medo mesquinho contemporâneo. 

    - Num assalto Lipe, a única coisa que podem roubar de você é sua moral – divagou Darling, sobre perdas e ganhos. E minha vida, meu Deus? – tentei questionar. Mas ela interrompeu com seus conhecimentos filosóficos fazendo STOP com mão, como quem congela a outra pessoa brincando de estátua.

    - Não se rouba nada que é realmente nosso, Lipe. E no estalar de dedos ela desfez o encanto ou a brincadeira. 

    Que abstrato isso, Darling – pensei.

    Quero transformar-me em uma nova espécie de homem ultramoderno. Um Deus risonho que aperfeiçoa tudo que se mexe por embriaguês e volúpia.

    Algum truque muito parecido com isso estava escrito em caps lock. E dava acesso a um link com a introdução musical de Jeevez and Wooster.

    Um som de uma pedra estraçalhando uma janela de vidro ecoou subitamente.

    - $%#&, Lipe???

    Susto. Taquicardia. Uma pausa imprevita interrompe a hipnose. Silêncio. Louise volta a tocar baixinho no Hotel Ady’s.

    - Estou com medo de continuar, tem várias realidade paralelas, pegadinhas, Darling. Não vamos perder a altivez.

     - Você é uma casa assombrada, Lipe.

    - Sim, eu era uma casa assombrada se não me engano.

    - E Darling, você quer porque quer. O que é que você quer?

    - Meu amor por você é meu amor por mim, Darling. Aprendi a caminhar lentamente, muito cuidadoso.  Embora minha cabeça gire a mil por hora e dispara a todo o momento. Estou sentindo uma sedução no ar do cosmos, Darling. Isso pode não ser bom. 

    - E não me pergunte se eu te amo, Honey. Você é meu amor. Se existe algum aroma de romantismo no mundo, você é essa flor que ainda sinto o perfume e exala essa voz: "Vamos, acredite na beleza", como diz O Boticário.

    - Eu amo amar você mais do que te amo, Darling. A noite continua, a continuidade aguda as coisas.

    - Vamos ultrapassar as barreiras do abstrato, Lipe? – Temi pelo pior quando ela disse isso.

    Os cinco primeiros minutos de um jogo de sedução é domínio do homem. Depois disso a coisa toda fica sem controle. Tudo que começa a ficar sem controle começa a cair nos braços de uma mulher. De maneira que a mulher domina muito a ciência do descontrole. 

    - Vamos parar por aqui, ok? Último beijo, última despedida, por favor, Honey. Essa conversa está ficando cara demais para os nossos pais.

    - Mas isso é um insulto, um desdém! – Ela exclamou, gesticulando com as mãos para o alto como uma italiana numa quitanda de frutas, explicando o formato de uma romã. 

    - Darling…honey…

    - STOP, Lipe. Você está ficando com a aparência de um atorzinho galante de cinema. Ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além – ela disparou qualquer coisa de alguém. 

    - Vamos acabar por aqui, Darling.

    - Você vai fugir? Desaparecer assim? Você me decepcionaria se cometesse isso. Seria assaz clichê. Não consegue terminar nada sem drama?

    - Não me vem com esse lance de drama, Darling. Não gosto de deixar toda a coisa como se fosse apenas…

    - Uma metalinguagem? Eu sou sua metalinguagem, Lipe?

    - Compreendo o quão abominável é uma moral da história, Darling.

    - Tenho toda a paciência com você, Lipe. Mas não entendo.

    - Entre uma moral da história e um final dramático, fico com o segundo.

    - Por que tem que ser assim? (soluço)

    - Darling, você é uma reflexão em voz alta.

    (um choro incontrolável de crise existencial se instalou)

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    Caio "Caiocito" Campos também mantém o blog Dublês de Poetas.

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