Chico Xavier não é Cinema
Por: Priscila Armani, em Cinema, Review | Nenhum comentário

Devido a seu roteiro fraco, elenco desgastado e forma de filmagem, podemos dizer que a obra foi concebida para funcionar na TV.
O Cinema Brasileiro, assim como em todo o mundo, só aposta suas fichas em produções que conciliem muitos fatores de sucesso. Isso explica a predominância, para não falarmos em monopólio, de produções encabeçadas pela Globofilmes, cujo sucesso e domínio na televisão pública leva a crer que o oferecido por eles é aquilo que o público brasileiro quer ver no cinema. E talvez seja mesmo, levando em consideração que Chico Xavier vai indo bem de bilheteria.
O que não significa que o filme seja bom. Público nunca foi sinônimo de qualidade. Chico Xavier concilia uma série de fatores que leva e continuará levando, nas próximas semanas, as pessoas ao cinema: tem um elenco extremamente familiar do público, até demais; tem um diretor que dirige produções globais desde 1967 e que também é bastante conhecido; aborda um tema polêmico, o espiritismo; e tem como protagonista uma das figuras mais queridas e questionadas desse país, um médium que conquistou tanto a admiração quanto o ódio de milhares de pessoas com suas palavras e atos de caridade. Com esses três fatores, é natural que as pessoas fiquem curiosas por assistir.
O problema está no fato de que Cinema e Televisão tem diferenças extremas de formatação, que vão muitíssimo além do tamanho da tela. Quem vai ao cinema, e estou falando dos frequentadores mais assíduos, não vai pra ver novela. Cada formato tem o seu lugar. E se os filmes, devidamente editados, funcionam na telinha, o contrário não acontece em hipótese alguma.
Clichês infantis, elenco desgastado e história simplista ofendem a inteligência do espectador que vai ao cinema em busca de uma obra cinematográfica bem feita. A pessoa pode até não saber o que é, mas sai sentindo falta de alguma coisa e insatisfeita com o que assistiu. Um filme tem que ser instigante, ter um enredo cativante e, de preferência, surpreendente; tem que acrescentar algo, tem de ter uma proposta. Toda essa mágica está não no conteúdo, muitas vezes tirado de livros e outros tipos de obras artísticas conhecidas, mas sim na forma como ele é apresentado a nós. O segredo está todo em como é contada a história.
E mais clichê ainda é dizer que essa forma de contar está ausente de todas as produções brasileiras, o que não é verdade. O Brasil tem Cinema e tem bom Cinema, mas infelizmente ele ainda não está chegando até as pessoas como deveria, por falta da divulgação adequada, por falta de espaço, de dinheiro, de infinitos fatores em conjunto que contribuem para isso. O bom Cinema também, muitas vezes, não é lucrativo e é renegado a segundo plano.
Por tudo isso exposto, podemos dizer que Chico Xavier não é e não funciona como Cinema. Pode ser uma obra que tem todo o mérito de levar o público até as salas, movido pela natural curiosidade e por uma intensa e bem trabalhada publicidade feita em torno do lançamento. Mas seu demérito está no fato de que essa produção traz um prejuízo irrecuperável para a formação desse público. Feito como foi é apenas mais uma artimanha da Globofilmes, para garantir sua supremacia sobre o gosto do brasileiro, que, por falta de outras opções, acha que está tudo muito bem e fica sem entender porque esse tipo de filme afasta o Brasil de ter chances reais de concorrer a um Oscar.
Assuntos relacionados: Chico Xavier, Christiane Torloni, Daniel Filho, Nelson Xavier, Tony Ramos
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Chico Xavier
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