David Byrne e Fatboy Slim unem-se em Here Lies Love
Por: Salomão Terra, em Música, Review | Nenhum comentário

Músicos criam uma obra conceitual, sobre a égide narrativa de Imelda Marcos, extravagante primeira ministra das Filipinas.
David Byrne e Fatboy Slim nunca foram conhecidos por estagnação criativa ou obra modesta. Muito pelo contrário. À frente do Talkin Heads, o primeiro alçou sua carreira a um patamar de artista inaugural e voz de uma geração sedenta por transformações e novidades perante às possibilidades digitais. O segundo pode ser considerado o principal nome a transformar a música eletrônica em gênero pop de largo consumo, com clipes na MTV, prêmios e até hits de elevador.
Dadas as similaridade dos trabalhos (a aposta nas desconstrução musical, samplers e criatividade suportada por bricolagens), o caminho confluente entre os dois músicos seria previsivelmente um lugar comum de batidas, vozes quase cinematográficas e um amontoado de hits dançantes.
Mas Here Lies Love é a antítese. Bem, primeiramente este é o disco que une os dois músicos e um time para lá de relevante. É denso, conceitual e difícil de se explicar. Vamos por partes:
O álbum tem como conceito central ser uma narrativa sonora sobre a vida de Imelda Marcos articulada em quatro atos. Sabe quem é ela? A senhoria foi primeira dama das Filipinas durante o regime de Ferdinando Marcos. Sua história começa ainda na juventude quando participou de concursos de beleza. Com a “eleição” de seu marido à presidência, colaborou com inúmeros atos de corrupção. Sofreu tentativa de homicídio em programa ao-vivo na TV. Sua coleção de sapatos ostentava mais de 3 mil pares. Sua riqueza continha toneladas de ouro, vários prédios em Manhattan (ela negou-se comprar o Empire States dizendo ser muito ostensivo), bilhões em conta na Suíça, praias particulares, museus, jatos, joias e toda a espécie de extravagâncias, além de um categórico “fora” dos Beatles por terem renegado apresentação particular, sendo em seguida expulsos do país.
Embora esteja viva, Imelda tem como desejo que em sua lápide seja gravado Here Lies Love, frase que dá nome ao disco.
Além de David Byrne e Fatboy Slim, o álbum conta com participações de Tori Amos, Florence Welch, Cindy Lauper, Sia, Santigold, Natalie Merchant, Róisín Murphy, Martha Wainwright, Camille e Sharon Jones, além de outras vozes de igual calibre.
O trabalho é duplo e sonoramente apoia-se sobre duas premissas: a pesquisa de David Byrne com música latina e os samplers de Fatboy Slim. À união, soma-se momentos de R&B e vozes de unicidade incontestável. Apesar de múltiplos estilos, ao final há um meio termo confortável, em que a dupla consegue equilibrar bem temas e personalidades.
E por falar em personalidade, Here Lies Love, faixa de abertura, coloca em primeiro plano Florence Welch, do Florence + The Machine, explorando seu lado soul. Sua voz soa melodiosa e arranjos de violino introduzem bem a questão autoral, jogando luzes sob todo o conceito do trabalho.
Every Drop Rain é inquestionavelmente minha dica extra-disco, unindo as cantoras ST Vincent e Candie Payne. É uma faixa que mostra toda o diálogo de Byrne com ritmos latino-americanos, mas sobretudo duas vozes de expressão marcante e com trabalhos próprios relevantes para a cena indie.
E então eis que surge Tori Amos, em You’ll Be Taken Care Of. Seu nome, atrelado normalmente a melodias e harmonias complexas à frente de pianos, ganha roupagem mais dançante mostrando o peso de produção e conceito bem amarrado na concepção de um trabalho.
Faixas depois, mais uma surpresa inusitada. Eleven Days ressuscita Cyndi Lauper e certamente pode ser considerada uma das principais canções. Aqui há mais de Fatboy Slim e a estética de Talkin Heads de Byrne. Batidas demarcadas por samplers junto a uma guitarra crua dotada de overdrives encaixa-se perfeitamente na voz de Lauper, numa espécie de revival oitentista.
Ainda no primeiro disco, vale ressaltar a participação de Róisín Murphy, cantora irlandesa famosa pelos vocais da extinta banda Moloko. Em Don’t You Agree sua voz é trabalhada com médios e como um elemento harmonioso, servindo junto a delays para uma linha de baixo e bateria marcantes.
Sabe aquela linha de balanço no estilo Parliament Funkadelic, ícone da geração funk da década de 60? Sharon Jones, vocalista do Sharon Jones & The Dap-Kings, é considerada um dos principais nomes a manter vivo este gênero. Ela aparece na abertura do segundo disco com Dancing Together, obviamente caminhando pelas mesmas praias que a tornaram uma musicista digna de atenção. Mais à frente, Catherine Elizabeth Pierson, vulgo “fundadora do B-52s”, é convidada a emprestar sua voz para um dos momentos mais “dance” do álbum. Há teclados e Catherine parece estar a vontade mergulhando no universo particular de sua banda.
Please Don’t é interpretada pela incontestável Santigold, nome proeminente na música de vanguarda de Novaiorquina. A propósito, se você tem ojeriza a nomes como Byonce e o falso R&B, aqui fica a dica para conhecer uma artista de múltiplas facetas, com canções que dialogam com rock, eletrônico e produções de incrível apuro estético.
Em seguida American Troglodyte é o momento solitário de David Byrne. Sob uma base familiar, o músico re-apresenta sua essência. Sintetizadores (poucos) e uma guitarra funkeada são tudo o que ele precisa para proporcionar diversão pura e dançante.
Para finalizar o álbum dois duetos de teclas: David Byrne cede sua voz para Seven Years, em que a melodia de Shara Worden, organista americana celebre, é entrecortada por digitarias; Why Don’t You Love Me? é o momento final em que Cyndi Lauper e Tori Amos se encontram de forma magnifica. Não há parâmetros de mensuração, mas sim uma pulsão por apertar o botão “repeat”.
detalhes
Confira mais sobre a obra no site de David Byrne.
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