• Alair Gomes: Fotografia Desnuda

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    Alair Gomes – Da física moderna à fisiologia, da matemática à biologia, Alair Gomes fez da Fotografia uma variação do desejo sexual

    Da janela de seu apartamento, no sexto andar de um edifício da Rua Prudente de Moraes, em Ipanema, Alair Gomes mirava sua câmera munida de potentes teleobjetivas para os homens que passeavam, conversavam, faziam exercícios ou simplesmente tomavam sol na praia. O fotógrafo era capaz de passar dias inteiros observando e capturando a beleza dos jovens em trajes sumários. O resultado dessa operação silenciosa é um conjunto de imagens denominado Finestra, que se tornou o elemento central das suas incursões fotográficas. Misto de voyeur e flâneur, também gostava de andar pelas ruas, flagrando mais de perto os rapazes bronzeados da zona sul carioca.

    Mas não é propriamente o registro do mundano e do trivial que interessa a Gomes. O cerne do seu trabalho é a montagem de narrativas ideais, através das quais o espectador é catapultado do mais prosaico ato cotidiano a um jogo imprevisível e fatal, em que se espreita prazerosamente infinitas possibilidades de alcance erótico.  Ao observar com os olhos do fotógrafo, o espectador da foto passa também a provar desse voyerismo de sugestões ambíguas.

    Essas fotografias dos garotos de Ipanema, realizadas no final dos anos 70 e início dos 80, projetaram o nome de Alair Gomes internacionalmente no circuito das artes visuais, mas considerá-lo apenas um precursor do nu masculino ou um expoente da arte homoerótica no Brasil seria mero reducionismo.

    Carioca do subúrbio de Engenho de Dentro, Gomes abandonou ainda jovem a profissão de engenheiro para dedicar-se às suas investigações particulares em vários campos do conhecimento: da física moderna à fisiologia, da matemática à biologia.  Atuou como crítico de arte e escreveu muitos textos de cunho filosófico. Apesar da inteligência refinada, segundos os amigos próximos, era humilde e operava seus estudos de modo reservado.

    Profundo conhecedor da arte clássica greco-romana e do renascimento – que também são objetos de sua devoção e da sua fotografia – Gomes via a criação artística como uma variante do desejo sexual, motivada pela compulsão do ser humano em realizar algo que o leve à eternidade.

    Segundo ele, a arte é a permissão divina para conferir perfeição à inacabada natureza humana. E a partir dessa perspectiva, o sexo é a melhor possibilidade de contato com o sagrado.

    Dentre seus escritos, pode-se deparar com inúmeros excertos sobre a questão: “Eu me interesso pela beleza humana e o fascínio que ela inspira é absolutamente primordial. Meus pontos de vista se tornaram tão definidos que tudo me leva a crer que a presença de diversas proporções geométricas no corpo humano, todas interligadas, é o que melhor explica por que o intelecto se sente tão atraído pela questão das proporções. Isso significa, entre outras coisas, que a posição dos órgãos sexuais a meia altura do corpo humano tem um peso muito maior na importância que se atribui aos conceitos de centro e de meio para a razão humana.”

    Apesar do reconhecimento de suas investigações ter se dado por meio da fotografia, esta foi a atividade que ele menos exerceu, tendo surgido de maneira sistemática em sua vida só após os 40 anos de idade. Ele costumava dizer que fotografar era um modo de aliviar a tensão de uma prolongada concentração em difíceis problemas de ordem intelectual. Talvez suas inquietações filosóficas tenham encontrado no silêncio da imagem seu melhor repouso.  De caráter confessional, suas fotografias espelham um mundo ideal e belo, perpetuado em átimos de segundo.

    Infelizmente Gomes não desfrutou da notoriedade. Somente quatro anos após a sua morte, uma mostra organizada em 1996 pelo colecionador carioca Joaquim Paiva na I Bienal de Fotografia de Curitiba lançou-o para o mundo. Na ocasião, o curador e crítico Hervé Chandés, então diretor da Fundação Cartier de Arte Contemporânea, de Paris, ficou impactado com a originalidade do seu trabalho e, em 2001, a Fundação Cartier dedicaria ao artista uma consagradora exposição individual.

    Uma jornada sentimental

    Durante uma viagem à Europa, em 1983, Gomes fotografou o estatuário greco-romano e também inúmeras obras renascentistas. Estas fotos, realizadas em museus da Itália, França, Inglaterra e Suíça, foram descobertas por acaso pelo amigo e colecionador Fabio Settimi, há pouco mais de três anos, durante a arrumação do material de Gomes para doação à Biblioteca Nacional, hoje detentora de seu espólio.

    Ao ter acesso a essas imagens, Settimi convidou o fotógrafo Miguel Rio Branco para editá-las.  O resultado desse processo virou exposição no ano passado, na Maison Européenne de la Photographie, em Paris. A mostra passou pelo Rio de Janeiro e, no momento, pode ser vista em São Paulo, na Galeria Bergamin, até 10 de abril.

    Numa ação conjunta, a Cosac Naify publicou o livro A New Sentimental Journey, que além dessas imagens de esculturas, traz passagens de um diário íntimo, iniciado durante a realização das fotos e finalizado somente em 1991. O texto, além de descrever os deslocamentos físicos da viagem, tem fundamento filosófico e trata da relação entre a arte e o erotismo e o papel de Eros na condição humana.

    Uma das passagens mais interessantes do relato de bordo é o encontro do fotógrafo com os cinco metros e dezessete centímetros do Davi de Michelangelo, em que descreve com minúcia a realidade humana do herói: “Suas nádegas salientes, que se sobressaem do arredondado de suas coxas vistas por trás, são perfeitamente lunares, mesmo em seu esplendor – no cruzamento da convergência das coxas, elas compõem a forma do templo isolado. As palle [bolas] se tornam um coração firmemente encravado – e a ponta do coração de seu sexo de amor se sobressai exatamente na cúspide do coração”.

    Se ao lançar seu olhar sobre os meninos da praia Gomes confere-lhes uma espécie de sacralização do corpo, no caso das esculturas, muitas delas descrições de cenas bíblicas, são vistas sob uma perspectiva totalmente carnal, erotizada.

    Alair Gomes perseguiu o hedonismo obsessivamente, até o fim de sua vida. Ele morreu em 1992, aos 71 anos, assassinado em seu apartamento pelo próprio amante, um segurança de uma loja de discos de Ipanema. O que só adicionou mística ao seu trabalho e legado.

    detalhes

    Confira mais da obra de Alair Gomes em A New Sentimental Journey

    autor

    Érica Rodrigues é apaixonada por profiterole, pamonha de Piracicaba, paçoca Amor e outros doces deleites. É jornalista há 9 anos e escreve sobre cultura e arte. Siga-a no Facebook e no Myspace. - Leia outros textos de
    • Bernardo disse:

      20 de February de 2012 às 7:58 pm

      Érica, o Alair Gomes não era carioca do Engenho de Dentro. Ele era nascido em Valença, interior do estado do RJ, portanto é fluminense, não carioca. Ele se mudou para a capital do estado ainda criança, e é talvez aí que tenha residido no Engenho de Dentro (embora em sua fase já famosa, residisse em Ipanema, onde tirou enorme parte de suas fotos). Vide também o verbete sobre ele na Wikipédia.

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