• A arte morreu em mim

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    Se a poesia morreu no século XIX, porque será que os poetas ainda existem?

    Se a poesia morreu no século XIX, porque será que os poetas ainda existem? Produzindo e publicando com suas metonímias, olhos verdes, cachecóis e levitações? São órfãos nascidos em um pé de alface. Dinossauros na atualidade. Por isso sofrem e clamam abraços apertados provenientes das quatro paredes que tanto desejam.

     
    Uma nostalgia me pediu para que primeiros momentos fossem resgatados. Aqueles instantes que viveram há mais de cem anos e nos quais eu me divertia ao construir uma rima séria, sexy ou totalmente lúdica. Um tempo em que todos os meus vestidos eram longos e com anágua – e tinha um crush no Machado de Assis, que era meu vizinho de bairro.

    Porém, foi atrevimento demais rebobinar minhas intenções a ponto de achar que podia resgatar algum exímio resquício de poesia. Assim que versos enferrujados nasceram da ponta dos meus dedos, fui avisada por uma voz potente que veio de dentro do meu aparelho de ar condicionado. “Daqui pra frente, quem fizer verso vai preso. Já que toda indiferença da sociedade não impediu que esses malucos continuassem com essa perversão de palavras.” 

     
    Escrever poesia é um crime intelectual. Da próxima vez que eu sequer passar para a linha de baixo antes que minha frase toque a borda direita do papel, um mandado de prisão cai sobre minha cabeça como uma bigorna de desenho animado. Toda as pessoas em um raio de 100km da minha localidade receberão um e-mail dizendo que há uma poetiza há solta: escondam suas crianças debaixo de pilhas de monografias de conclusão de curso que abordam a comunicação social como tema.

    Mas não pensem que escapei ilesa. Por enquanto, minha punição é sentimental – como deve ser para aqueles que acham bonitinho dividir qualquer tipo de emoção. Sinto rejeição. As letras “r” e a terminação “ão” estão morrendo de raiva de mim.

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    Jornalista, apaixonada por cultura, viagens e literatura. Tem vários cachorros. É cosmopolita e também apreciadora da natureza. Se considera cidadã do mundo e quer sempre conhecer mais sobre diferentes culturas e opiniões. Siga no Twitter ou visite seu blog, Ótimas Mentiras. - Leia outros textos de

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