• Campanella e O Segredo dos Seus Olhos

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    Diretor concorre, com esse filme, ao seu segundo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

    Juan José Campanella é um cineasta cuja carreira é bastante diferente. Apesar de argentino, conseguiu formar sólida experiência em Hollywood, tendo uma produção tão profícua em seriados e sitcoms norte-americanos quanto em longas-metragens. Tornou-se mais conhecido mundialmente em 2001, quando fez O Filho da Noiva, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Outros trabalhos que lhe deram prestígio foram Lei e Ordem e House, dois seriados bastante respeitados nos Estados Unidos e cheios de fãs ao redor do mundo.

    Talvez por influência (positiva ou negativa) dos últimos dez anos que trabalhou com essas duas produções, O Segredo dos Seus Olhos seja uma produção tão excepcional. Explico: ou os seriados liberaram a veia criativa do diretor ou o prendiam demais e ele decidiu investir tudo nesse filme. Fato é que uma segunda indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro numa carreira relativamente curta não acontece por acaso. Campanella tem talento. E isso está bastante óbvio nesse filme, inspirado em romance do escritor argentino Eduardo Sacheri, que também é roteirista, junto com o cineasta.

    O diretor retoma a parceria com o ator Ricardo Darín, que interpreta Benjamín Espósito, um agente da Justiça Federal que está se aposentando e decide rever uma antiga chefe, Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), para lhe contar a respeito do romance que decidiu escrever, agora que terá tempo para se dedicar à literatura. Isso acontece em 1999. Quando ele começa a rever os fatos para formular a obra, o filme volta no tempo e o mostra trabalhando num escritório do governo, resolvendo diversos tipos de crimes. Um dia, é designado para ir à cena de um crime e fica impressionado com a violência com a qual a vítima foi machucada, uma mulher jovem que foi estuprada e morta. Isso foi em 1974. 

    A partir daí, a trama faz uma série de revelações. Surpreendentes ou não, elas sempre nos deixam na expectativa de mais e mais. O desfecho é uma obra prima, como poucas já conseguidas na história do cinema. Se o filme fosse norte-americano, esse final estaria, sem dúvida, destinado a fazer parte da cultura popular num futuro próximo. Bem ao estilo do que acontece com muitos filmes como O Império Contra-Ataca, só pra ficar num exemplo bem genérico.

    Existem inúmeros exemplos, só para se ater aos aspectos técnicos, que comprovam que Campanella sabe bem o que está fazendo e que tudo de bom que o filme possui passa pelo seu “toque de Midas”. O primeiro deles já começa no curioso fato de que foi ele mesmo, sozinho, que fez a montagem do filme, algo incomum entre diretores. Mas não é a primeira vez que ele faz isso.

    Outro exemplo é como ele conduz a câmera durante toda a obra. Primeiramente, ele usa o foco para atrair pontos de interesse do público e até para enganá-lo. Nunca sabemos ao certo porque as imagens estão desfocadas. Seriam lembranças? Seria por causa da dor dos personagens? O foco ou a falta dele sempre querem nos dizer alguma coisa.

    A mesma coisa vale para closes e filmagens em profundidade. Espósito escreve na sala de sua casa e o diretor opta por filmá-lo de longe, tornando-o bem pequeno aos nossos olhos com relação ao cômodo. Closes no rosto e mãos da vítima. Close em pessoas de fotografias antigas. Nada é por acaso. É preciso ficar atento. 

    Seu jeito peculiar de captar certas cenas, que nos contam a história apenas com imagens, também é um atrativo a parte do filme. Os diálogos, especialmente entre Espósito e Ricardo Morales (Pablo Rago), são filmados de longe, com eles de costas; com o rosto de um sobrepondo o do outro; e até mesmo a “convencional” câmera de frente para um e para o outro. A tela está partida, discreta e inteligentemente, na filmagem conjunta de cômodos de uma casa, a melhor forma de se mostrar eventos acontecendo simultaneamente. E o melhor de tudo: as sequências sensacionais e de tirar o fôlego. A perseguição, na qual a câmera “está” com quem é perseguido (ainda me pergunto como foi feita, sinceramente); o interrogatório (filmado com a câmera na mão, angustiante), e a cena do elevador (de fazer a gente remexer de desconforto na cadeira).

     
    A sonorização (ou a ausência dela) também é feita de maneira brilhante. Seja trilha sonora instrumental, com violinos e piano gerando uma atmosfera melancólica; seja o som ambiente discreto, fundamental em certas cenas mais tensas.

    Também não podem deixar de serem destacadas as atuações de Ricardo Darín e Pablo Rago. O primeiro reage com surpresa, revolta e passividade ante os acontecimentos, dando ao personagem as “temperaturas” certas nos momentos necessários. Já o segundo, como Ricardo Morales, é perfeito. Um homem dúbio, do qual nunca sabemos o que esperar.

    O Segredo dos Seus Olhos não vai ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, porque está concorrendo com A Fita Branca, de Haneke. Mas se o cenário da competição fosse outro, mereceria muito o prêmio. Mas quem sabe? O Oscar é cheio dessas surpresas. Vamos torcer para que a América Latina quebre o jejum no próximo Domingo.

    detalhes

    O Segredo dos Seus Olhos
    Dirigido por Juan José Campanella (2h)
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    autor

    Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.  - Leia outros textos de

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