Peter Gabriel lança Scratch My Back, seu nono disco
Por: Salomão Terra, em Música, Review | Nenhum comentário

Em Scratch My Back, ele homenageia vários momentos musicais, com releituras de artistas que vão de David Bowie a Radiohead.
Confesso que sempre tive por Peter Gabriel uma percepção onírica e pouco definida. Ele, que foi fundador do Genesis mas como solista criou aura enigmática, vem à memória ora por suas extravagantes fantasias, ora pelo passeio nebuloso por estéticas variadas da world music.
Neste mês, para completar a lista de nove discos de estúdio, ele lança Scratch My Back. É um trabalho de covers, mas antes de entrar neste assunto, há algumas coisas que você deve saber sobre Peter Gabriel:
Na época do Genesis ele era, digamos, o mais malucão de todos. A relação com a banda foi conturbada e, o nascimento de sua filha (que o fez abdicar das gravações de um disco da banda) foi o gatilho para sua saída.
Os quatro primeiros trabalhos do artista não levaram nome. Ele queria que todos fossem compreendidos como uma obra única. Posteriormente, através da mídia especializada e fãs, foram finalmente intitulados.
Gabriel trabalhou com produtores de grande expressão, como Bob Ezrin (Pink Floyd), Robert Fripp (King Crimson), Steve Lillywhite (sim, o produtor dos primeiros discos do U2) e Daniel Lanois (também produtor do U2).
Como compositor de trilhas sonoras, tem três grandes trabalhos: Birdy, do filme homônimo, Passion: Music For The Last Temptation of Christ, para filme de Martin Scorsese, de mesmo nome; e Long Walk Home, para Rabbit-Proof Fence.
Bem, voltemos a Scratch My Back, disco de 12 faixas que vão de releituras de David Bowie a Radiohead. A edição e escolha certamente são dignas de nota, mas a visão de Gabriel e impressão de seu estilo único são fatores mais relevantes.
Heroes, faixa emblemática de David Bowie, ganha versão quase irreconhecível, banhada com arranjos eruditos de cordas, mas mantendo em sua essência uma vertente eletrônica discreta e essencial. Em Boy in The Bubble, canção de Paul Simon com influências latinas e africanas, há uma autoria de caráter melancólico, praticamente reconstruída apaixonantemente sob piano e voz. Em Mirror Ball, do Elbow, Gabriel trabalha em cima de uma anulação rítmica, elemento proeminente da versão original, que desta vez tem qualquer instrumento percussivo excluído da composição.
Flume, originalmente um folk rock de Bon Iver, vê seu violão ser substituído por piano e discretos arranjos de sopro. A “eletronicidade” do Talking Heads em seu aspecto mais embrionário (datado ou estético), encontra o eruditismo das cordas em Listening Wind, com vocais quase largados em uma ode ao termo Experimental. The Power of the Heart , de Lou Reed, é sem dúvida a que mais se assemelha à versão original, incluindo seu timbre de voz.
My Body Is a Cage, do Arcade Fire, marca a virada do álbum num tiro arriscado de Gabriel, que para não se dizer 100% realizado na empreitada, fica à deriva ao propor leitura sem o estranhamento fundamental dos canadenses. The Book of Love continua a sintonia com artistas contemporâneos e também a tendência em substituir violões por teclados, à essa altura já saturada. Em I Think It’s Going to Rain Today, canção setentista de Randy Newman, a essência da faixa é mantida, mas ganha com a expressividade dos vocais. Après Moi, que na voz de Regina Spektor é extremamente dinâmica, torna-se em Gabriel uma introspecção de harmonias complexas. Philadelphia é a homenagem à Neil Young, que inclusive se tornou famosa por integrar trilha sonora de filme homônimo. Para encerrar, eis a cartada final, com Street Spirit (Fade Out), releitura de Radiohead em que Gabriel tenta ressaltar através da voz um paralelo com Tom Yorke, excluindo a melodia pop, mas contrapondo com minimalismos peculiares.
A bem da verdade, Scratch My Back não pode ser considerado o melhor trabalho do artista. Serve para dar vazão às suas referências e, acima de tudo, mostrar contraposições musicais criativas e possibilidades de fuga ao universo pop que se satura e se repete.
Aproveite para escutar Heroes, originalmente de David Bowie, em versão do músico:
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Mais informações sobre o trabalho podem ser acessadas no site oficial de Peter Gabriel
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