Não serei doutor(a)
Por: Renata Ferri, em Colunas, Literalmente | Nenhum comentário

Bons escritores não são conhecidos como grandes divulgadores de seus trabalhos. Tenho a impressão que eles todos pensam “eu escrevi isso aí mesmo e quem quiser ler que leia, e quem não quiser ler, compre uma revista Tititi e não me encha o saco. Porém, se alguém quiser me dar um prêmio Nobel ou Jabuti, ou qualquer outro tipo de dinheiro, fama ou credibilidade, eu aceito.”
Pensei no Kafka, que, nas orelhas dos livros, mostra aquela carinha de virgem reprimido. Sugiro que, caso tenham um exemplar em casa, deem uma olha no semblante do rapaz. Tudo que ele escreveu foi autobiográfico. O cara sentia-se um inseto. Uma vida inteira de fantasiosas e exaustivas reflexões para chegar até o topo de uma montanha onde há um castelo que não existe. Franz Kafka usou a escrita como catarse, e antes que eu seja linchada por fiéis kafkianos, completo que usou muito bem o recurso.
Pensei depois no Gabriel Garcia Marquez, que descreveu aqueles cem deliciosamente sofridos anos. Aqueles fascinantes personagens todos chamados Aureliano ou José Arcádio ou Remédios, para as meninas (o que eu acho que é uma ótima metáfora visionária do abuso de anticoncepcionais e pornografia infantil). Obviamente o Gabriel era bem mais safadinho que o Franz, mesmo com correções de época. Ambos autobiográficos a seus modos. Muito merecido o Nobel de Literatura.
Se o Kafka e o Marquez tivessem twitter (e soubessem mexer), qual dos dois tentaria promover seus livros através desse veículo? Depende de quantos seguidores eles teriam. Talvez preferissem ir para o Big Brother.
Ser escritor(a) nunca foi orgulho da família. Dizer “Mãe, vou escrever pra viver” é meio como anunciar gravidez na adolescência. Com a diferença de que nem todos os escritores realmente “parem” os seus livros. E é assim, freudianamente, que se explica o comportamento blasée daqueles que escolheram esse estilo literário de viver.
E, em nome de todos os ácaros e respectivos hospedeiros da minha pequena biblioteca particular eu digo: “Sorry, mama”.
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